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DIÁRIO DE VIAGEM – Cunha Entre o barro, a lavanda e a Mantiqueira

Atualizado: há 20 horas

"Viajar é descobrir que alguns lugares não ficam apenas na memória. Eles passam a fazer parte da nossa história."



Existem cidades que impressionam por seus monumentos. Outras nos conquistam pela maneira como nos recebem, pelo ritmo tranquilo de suas ruas e pelas histórias escondidas em cada detalhe. Cunha é uma dessas cidades. Cercada pelas montanhas da Serra da Mantiqueira, ela reúne arte, arquitetura, natureza e tradição de uma forma rara, fazendo com que cada visita seja diferente da anterior.


Foi em busca dessa experiência que, nos dias 1 e 2 de agosto, o Caminhos da Arquitetura voltou a percorrer as estradas rumo a Cunha. Nossa viagem começou ainda cedo, quando o grupo partiu de São Paulo e fez a tradicional parada no Parque Santos Dumont, em São José dos Campos, para encontrar os viajantes do Vale do Paraíba. Entre abraços, reencontros, malas sendo acomodadas no bagageiro e as primeiras conversas do fim de semana, já era possível perceber aquele entusiasmo tão característico de quem sabe que viverá dias especiais.


Sempre dizemos que uma viagem não começa quando chegamos ao destino. Ela começa no instante em que deixamos a rotina para trás e permitimos que a estrada nos conduza a novas descobertas. E foi exatamente isso que aconteceu. O céu parecia ter escolhido sua melhor versão para nos acompanhar. Azul intenso, sem uma única nuvem, iluminava delicadamente as curvas da Serra da Mantiqueira, enquanto as montanhas iam surgindo pela janela como um convite para desacelerar.


Durante o percurso, as conversas se misturavam às expectativas sobre tudo o que nos aguardava. Alguns viajantes retornavam a Cunha depois de alguns anos; outros fariam aquela descoberta pela primeira vez. Mas havia algo em comum entre todos: a curiosidade em compreender por que uma pequena cidade do interior paulista se tornou uma referência nacional quando o assunto é arte cerâmica, patrimônio histórico e turismo cultural.


Enquanto o ônibus seguia vencendo as curvas da serra, observávamos a paisagem se transformar lentamente. Os vales cobertos pelo verde do inverno, as pequenas propriedades rurais e o relevo montanhoso anunciavam que estávamos nos aproximando de um lugar onde o tempo parece seguir outro ritmo. Em Cunha, não há pressa. Há contemplação. E talvez seja justamente esse o seu maior encanto.



O barro que conta histórias


  • Augusto Campos, Marcelo Guedes, Lei Galvão e Adriel Firmino na Oficina de Cerâmica


Nossa primeira parada foi na Oficina de Cerâmica, onde os artistas Lei Galvão e seu sócio Augusto Campos já nos aguardavam para nos receber. Antes mesmo de qualquer explicação, fomos acolhidos por um verdadeiro cenário de arte. Vasos, esculturas, pratos e inúmeras peças espalhadas pelo jardim e pelos salões revelavam, em diferentes formas, cores e texturas, o talento de quem transformou o barro em linguagem artística.


Enquanto caminhávamos pelo ateliê, Lei e Augusto começaram a compartilhar a história da cerâmica em Cunha, que está profundamente ligada à chegada dos mestres japoneses na década de 1970. Vindos do outro lado do mundo, eles trouxeram consigo não apenas uma técnica milenar, mas uma nova maneira de compreender a relação entre a terra, o fogo e o tempo. Foi ali, nas montanhas da Mantiqueira, que esse conhecimento encontrou terreno fértil para criar raízes e transformar o destino da cidade.


Entre uma lembrança e outra, uma passagem arrancou sorrisos do grupo. "Naquela época, nossas peças eram encaixadas dentro de uma Brasília e lá íamos nós vender o que produzíamos nas capitais de São Paulo e Rio de Janeiro." Era difícil não imaginar aquela cena. Um pequeno carro carregando muito mais do que cerâmicas; carregando sonhos, dedicação e a esperança de mostrar ao mundo o talento que nascia em Cunha.


De lá para cá, muita coisa mudou. Os ateliês se multiplicaram, a técnica ganhou reconhecimento nacional e internacional, o turismo cresceu e a cidade passou a ser conhecida como a capital nacional da cerâmica artística. No entanto, permanecem inalterados o cuidado, a paciência e o respeito pelo processo artesanal, características que fazem de cada peça uma obra única.


Acomodados ao lado dos tradicionais fornos escalonados, tivemos uma verdadeira aula sobre a produção da cerâmica. Aprendemos sobre a preparação do barro, a modelagem, o tempo necessário para a secagem, a delicada etapa da queima e a transformação que acontece quando o fogo revela as cores definitivas de cada peça. A cada explicação, nossos viajantes acompanhavam atentamente cada detalhe, procurando compreender um trabalho que exige muito mais do que técnica: exige sensibilidade.


Ao lado dos fornos, alguns alunos praticavam em seus tornos. Era impossível não parar por alguns minutos para observar aquelas mãos experientes conduzindo o barro ainda informe até que, quase como num passe de mágica, surgissem vasos, tigelas e outras peças perfeitamente equilibradas. O silêncio que se formava ao redor dizia muito sobre a emoção daquele instante. Havia algo de fascinante em perceber como um material tão simples podia ganhar tanta beleza pelas mãos de um artesão.


Caminhando pelo ateliê, descobríamos novas peças a cada ambiente. Algumas chamavam a atenção pelas cores intensas; outras, pela delicadeza das formas ou pela textura marcada pelo fogo. Mais do que observar objetos, estávamos conhecendo uma tradição construída ao longo de décadas, preservada por artistas que continuam moldando, todos os dias, a identidade cultural de Cunha.


Ao deixarmos o ateliê, uma reflexão parecia acompanhar o grupo. A arquitetura e a cerâmica possuem muito mais em comum do que imaginamos. Ambas nascem da matéria-prima, exigem técnica, paciência e respeito ao tempo. Talvez seja justamente por isso que um lugar como Cunha desperte tanta admiração entre arquitetos. Aqui aprendemos que nenhuma grande obra acontece às pressas e que a verdadeira beleza está no cuidado dedicado a cada etapa do processo.


o artesão Leir ensina a tecnica da cerâmica aos viajantes do Caminhos da Arquitetura
o artesão Leir ensina a tecnica da cerâmica aos viajantes do Caminhos da Arquitetura

Sabores que acolhem


Ainda envolvidos por tudo o que havíamos aprendido no ateliê, seguimos para o Restaurante Estação Galeto, um daqueles lugares que parecem ter sido cuidadosamente desenhados para dialogar com a paisagem. A construção, marcada pelo uso da madeira e de grandes panos de vidro, permite que a mata da Mantiqueira participe da experiência. De praticamente qualquer mesa era possível contemplar o verde do lado de fora, como se a natureza também tivesse sido convidada para o almoço.


O ambiente transmitia aconchego. A luz natural invadia o salão, a madeira aquecia o espaço e o aroma que vinha da cozinha anunciava que ali a gastronomia também fazia parte da cultura local. Aos poucos, nossos viajantes foram se acomodando nas mesas reservadas para o grupo, aproveitando aquele momento para descansar um pouco, trocar impressões sobre a visita ao ateliê e compartilhar as primeiras fotografias do dia.


O cardápio era um convite aos sabores do interior. O tradicional galeto assado, preparado lentamente, conquistou muitos dos viajantes, enquanto outros se encantaram com a deliciosa berinjela à parmegiana recheada de queijo, um prato que surpreendeu pelo sabor e pela delicadeza da preparação. Independentemente da escolha, todos concordavam em um ponto: era uma comida com gosto de afeto, daquelas que nos fazem lembrar os almoços de domingo, a mesa cheia e a cozinha da casa da avó. Entre um prato e outro, surgiam comentários como "isso aqui merece repeteco" e "vai ser difícil voltar para a comida de casa depois dessa".


Mais do que uma pausa para o almoço, aquele momento representava uma agradável confraternização. O grupo já estava completamente entrosado. As conversas aconteciam naturalmente entre uma mesa e outra, risadas preenchiam o ambiente e, pouco a pouco, a viagem deixava de ser apenas um roteiro para se transformar em uma convivência construída a cada parada.


Antes de nos despedirmos, tivemos o privilégio de ouvir a história de Luís Otávio, proprietário do restaurante. Engenheiro agrônomo e ex-professor universitário no Rio de Janeiro, ele compartilhou conosco sua trajetória e contou como decidiu trocar a vida agitada da cidade grande pela tranquilidade das montanhas de Cunha. Em seu relato havia algo que nos chamou a atenção: não falava apenas de um restaurante, mas de um projeto de vida. Era evidente sua paixão pela cidade e o orgulho em fazer parte da história recente de Cunha, contribuindo para que visitantes de todas as partes do Brasil levassem dali não apenas uma boa refeição, mas também uma lembrança afetiva do lugar.


Ao deixarmos o restaurante, ficou a sensação de que arquitetura e gastronomia caminham lado a lado. Um espaço bem concebido, integrado à paisagem e preenchido por histórias verdadeiras, transforma um simples almoço em uma experiência. Afinal, viajar também é conhecer pessoas que acreditaram em seus sonhos e decidiram construir sua história em lugares especiais como Cunha.




experiência gastronômica no Estação Galetos, confraternização no almoço com viajantes.
experiência gastronômica no Estação Galetos, confraternização no almoço com viajantes.

O espetáculo do entardecer


Depois de uma breve parada para as tradicionais fotografias, seguimos para a pousada onde seríamos recebidos por Dona Nair e seu esposo Ismael. A hospitalidade apareceu logo na chegada. Com aquele jeito acolhedor de quem recebe amigos e não apenas hóspedes, eles nos deram as boas-vindas enquanto organizávamos a distribuição dos quartos e acomodávamos as malas.


O tempo era curto, porque um dos momentos mais aguardados da viagem ainda nos esperava: o pôr do sol no Lavandário.


Pouco depois já estávamos novamente na estrada. O céu permanecia completamente limpo e o sol de inverno iluminava a Serra da Mantiqueira com uma luz dourada que parecia valorizar ainda mais cada curva da paisagem. Quando chegamos ao Lavandário, percebemos que muitas outras pessoas também haviam escolhido aquele lugar para encerrar o dia. Ainda assim, o espaço transmitia uma tranquilidade difícil de explicar. Aos poucos, nosso grupo foi caminhando entre os canteiros de lavanda, procurando um lugar para contemplar aquele cenário que parecia uma pintura.



momento mágico no por do sol do Lavandário com nossos viajantes no Caminhos da Arquitetura
momento mágico no por do sol do Lavandário com nossos viajantes no Caminhos da Arquitetura

O perfume das lavandas era levado pelo vento suave da montanha, enquanto os tons de lilás contrastavam delicadamente com o verde da vegetação e o azul intenso do céu. Alguns viajantes procuravam o melhor ângulo para fotografar. Outros preferiam simplesmente sentar na grama, conversar ou permanecer em silêncio, admirando a paisagem. Era bonito observar como cada pessoa vivia aquele momento à sua maneira.


À medida que o sol iniciava sua despedida, todos pareciam ser atraídos para o mesmo lugar. Sem que ninguém combinasse, fomos nos aproximando para assistir ao espetáculo da natureza. Entre uma conversa e outra, nossos olhares se voltavam para o horizonte, acompanhando lentamente a descida do sol por trás das montanhas. Chegamos até a contar os segundos daquele instante, como quem tentava prolongar um momento que sabíamos ser impossível segurar.


Quando os últimos raios dourados desapareceram atrás da Serra da Mantiqueira, um silêncio tomou conta do grupo por alguns instantes. Depois vieram os sorrisos, os aplausos espontâneos e, claro, muitas fotografias. Afinal, alguns cenários podem até ser registrados pela câmera, mas só revelam sua verdadeira beleza quando são vividos.


E como toda boa experiência merece um sabor especial, seguimos para a lanchonete do Lavandário. Entre tantas opções, os sorvetes de lavanda, alecrim, manjericão com limão-siciliano foram os grandes escolhidos pelos viajantes. O aroma do café recém-passado também conquistava quem preferia espantar o frio das montanhas com uma bebida quente. Sentados na varanda, observando as últimas cores do entardecer desaparecerem no horizonte, tivemos a certeza de que alguns lugares conseguem transformar um simples fim de tarde em uma lembrança para toda a vida.

Uma noite para guardar na memória


Ainda encantados com o espetáculo do pôr do sol, fizemos uma rápida parada no caminho para comprar alguns vinhos e seguimos de volta para a pousada. O frio da noite já começava a tomar conta das montanhas e, enquanto cada viajante se recolhia por alguns instantes para um banho quente e um breve descanso, Dona Nair preparava, com todo o carinho que lhe é característico, um dos momentos mais esperados da noite.


Com o cair da noite, unimos as mesas formando uma grande mesa comprida, daquelas que aproximam as pessoas naturalmente. No pátio da pousada, sobre nossas cabeças, um cordão de lâmpadas suspensas lançava uma luz amarelada e delicada, criando exatamente o clima que aquele ambiente pedia. A iluminação suave destacava os rostos sorridentes, fazia as taças de vinho brilharem e transformava aquele espaço em um lugar ainda mais acolhedor, como se o tempo tivesse desacelerado apenas para que pudéssemos aproveitar cada instante.


As taças foram sendo preenchidas, os primeiros brindes aconteceram e as conversas sobre a viagem deram lugar às histórias de vida, às lembranças de outros Caminhos já percorridos e às risadas espontâneas que ecoavam pelo pátio. Em pouco tempo, o ambiente estava tomado por um clima de amizade que só as viagens conseguem criar. Era bonito perceber como pessoas que, poucas horas antes, mal se conheciam, agora dividiam a mesma mesa como velhos amigos.



aquele momento juntos celebrando a nossa viagem incrível em Cunha com os viajantes
aquele momento juntos celebrando a nossa viagem incrível em Cunha com os viajantes

Foi então que Gisele e André se revezaram no violão para nossa alegria. As primeiras notas bastaram para que todos se aproximassem ainda mais. O que começou com uma música logo se transformou em um grande coro. Um cantava mais alto, outro acompanhava apenas o refrão, alguns batiam palmas marcando o ritmo e havia até quem desafinasse sem o menor constrangimento. E era justamente isso que tornava aquele momento tão bonito: ninguém estava preocupado em cantar bem, mas em cantar junto. A cada nova canção, mais vozes se uniam ao coro improvisado, criando uma atmosfera de alegria difícil de descrever. Não havia plateia, nem artistas. Éramos apenas amigos compartilhando uma noite que, sem que percebêssemos, já se tornava uma das lembranças mais bonitas da viagem.


Entre uma música e outra, os caldinhos fumegantes circulavam pela mesa, o vinho aquecia as conversas e o frio típico das montanhas fazia daquele momento um verdadeiro refúgio. Sob a luz do luar e o brilho delicado das pequenas lâmpadas, o som do violão, as gargalhadas e as vozes que cantavam em coro pareciam dizer que aquele dia ainda não queria terminar. Encerramos a noite com o coração aquecido, conscientes de que são momentos assim, simples e verdadeiros, que permanecem na memória muito depois que a viagem termina.


Aos poucos, as músicas foram ficando mais baixas, as taças já estavam vazias e o frio típico da Serra da Mantiqueira começava a pedir um cobertor e uma boa noite de sono. Entre um último acorde do violão, um abraço de despedida e o inevitável "amanhã a gente continua", cada viajante foi recolhendo suas lembranças daquele primeiro dia e seguindo para seu quarto. O silêncio foi tomando conta da pousada enquanto a lua permanecia iluminando a noite nas montanhas. Adormecemos com aquela agradável sensação de que o dia havia sido vivido por inteiro e com a expectativa de que a manhã seguinte ainda nos reservava muitas descobertas.




aquele café delicioso preparado com carinho pela D. Nair, pra começar bem nosso dia.
aquele café delicioso preparado com carinho pela D. Nair, pra começar bem nosso dia.

O amanhecer chegou devagar, acompanhado pelo canto dos pássaros e pelo aroma irresistível do café fresco vindo da cozinha. Antes mesmo de deixarmos os quartos, o perfume do café passado na hora já percorria toda a pousada, anunciando que um novo dia começava.


Dona Nair, sempre atenciosa, já havia preparado uma mesa generosa, repleta de frutas frescas, pães, bolos, doces caseiros, queijos, sucos e tantas outras delícias que era difícil escolher por onde começar. Aos poucos, nosso grupo foi chegando à varanda, ainda comentando as músicas da noite anterior e relembrando os momentos vividos ao redor daquela grande mesa no pátio da pousada.


Sentados de frente para a mata que cobria o morro, tomávamos nosso café da manhã sem pressa. O sol atravessava delicadamente as árvores, iluminando a paisagem e aquecendo a manhã fria da serra. Eram aqueles pequenos momentos que fazem parte das viagens e que muitas vezes ficam gravados na memória tanto quanto as grandes atrações. O silêncio era interrompido apenas pelas conversas descontraídas, pelo tilintar das xícaras e pelo canto dos pássaros que pareciam dar as boas-vindas ao novo dia.


Depois desse café preparado com tanto carinho, encontramos nossa guia Edna, que já nos aguardava para iniciarmos nossa caminhada pelo Centro Histórico de Cunha. A partir dali descobriríamos que a cidade guarda muito mais do que belas paisagens. Suas igrejas, casarões e ruas preservam capítulos importantes da história paulista, revelando como arquitetura, religião, cultura e tradição caminham lado a lado há mais de duzentos anos.


aquele momento de visita nas igrejas contando a história de Cunha que a gente adora.


Entre igrejas e memórias


Nossa primeira parada foi a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Ainda do lado de fora, Edna começou a revelar detalhes que muitas vezes passam despercebidos aos olhos de quem apenas visita o templo. Sua fachada imponente, marcada pelas três portas principais, demonstra a forte influência da arquitetura religiosa portuguesa. As duas torres, encimadas pelo tradicional galo, também chamam a atenção e simbolizam um importante elemento da herança lusitana presente em Cunha. Ouvimos ainda sobre o cuidadoso trabalho de restauração realizado ao longo dos anos, garantindo que esse importante patrimônio continue preservando sua história.


Ao atravessarmos suas portas, fomos envolvidos pela atmosfera acolhedora do interior da igreja. O forro em madeira imediatamente chamou nossa atenção, assim como o piso em ladrilho hidráulico, levemente inclinado em direção à rua, solução adotada para acompanhar o relevo natural do terreno. No altar principal, os detalhes dourados refletiam suavemente a luz dos lustres, valorizando ainda mais cada elemento artístico presente naquele espaço de fé e contemplação.


Deixando a Matriz, seguimos caminhando calmamente pelas ruas do centro histórico até chegarmos à Igreja do Rosário. Diferentemente da imponência da igreja anterior, sua beleza está justamente na simplicidade. A fachada em tons claros transmite serenidade e harmoniza perfeitamente com o casario ao redor. Em seu interior, o barroco paulista se revela de forma delicada. O altar, de proporções mais discretas, o mobiliário preservado e a utilização da taipa de pilão mostram como as técnicas construtivas tradicionais continuam contando a história da cidade através da arquitetura.


a visita na igreja do Rosário foi simplesmente cheio de emoção entre os viajantes.
a visita na igreja do Rosário foi simplesmente cheio de emoção entre os viajantes.

Enquanto Edna compartilhava cada detalhe, era possível perceber o interesse dos viajantes. Muitos fotografavam elementos arquitetônicos, outros apenas observavam atentamente cada explicação. Mais uma vez compreendíamos que visitar um edifício histórico vai muito além de admirar sua beleza; significa compreender a cultura e a identidade de um povo.


Nossa caminhada continuou até o Mercado Municipal, facilmente identificado por sua charmosa fachada nas cores azul e branco. Muito mais do que um espaço comercial, aquele edifício sempre foi um importante ponto de encontro da cidade. Foi ali que moradores, produtores rurais e viajantes se encontraram durante décadas, e o antigo chafariz existente em frente ao mercado servia de apoio para quem seguia viagem pela região.


nosso momento de viver a historia do Mercado Municipal de Cunha com nossos viajantes.


Nossos viajantes aproveitaram para degustar queijos artesanais, doces caseiros, compotas e outras especialidades produzidas na região. Entre uma compra e outra, surgiam recomendações sobre qual doce levar, qual queijo experimentar e qual café merecia um lugar especial na bagagem.


Seguimos então para o Museu Municipal de Cunha, instalado em um dos edifícios históricos mais importantes da cidade. Antes de se tornar museu, aquele casarão servia como pousada para viajantes que cruzavam a região e, segundo os registros históricos, chegou a hospedar Dom Pedro durante uma de suas passagens por Cunha. No pavimento térreo funcionava um comércio que abastecia tropeiros e moradores.


Logo na entrada percebemos o cuidado dedicado à preservação daquele patrimônio. O mobiliário de época, os forros em madeira, as espessas paredes responsáveis pelo conforto térmico e o belo piso em tábuas corridas de madeira de lei nos transportavam imediatamente para outro tempo.


Percorrendo suas salas, descobrimos objetos, fotografias, utensílios e documentos que ajudam a contar a trajetória de Cunha desde seus primeiros anos. Cada ambiente revelava um pouco da vida cotidiana de seus antigos moradores, mostrando como a preservação do patrimônio é fundamental para manter viva a memória de uma cidade.

muita história contada no museu que serviu de hospedagem no Brasil Colonial, com mobiliarios de época.
muita história contada no museu que serviu de hospedagem no Brasil Colonial, com mobiliarios de época.

Depois seguimos caminhando tranquilamente pelas ruas históricas, observando as fachadas preservadas, as esquadrias em madeira, os antigos sobrados e os pequenos detalhes construtivos que muitas vezes passam despercebidos. Era justamente esse exercício do olhar que tornava nossas visitas tão especiais. Em cada esquina havia uma nova descoberta, uma nova história e um novo motivo para admirar a riqueza arquitetônica de Cunha.


Nossa manhã chegava ao fim, mas a sensação era de que cada passo havia nos aproximado ainda mais da essência da cidade. Era hora de seguir para mais uma experiência que também faz parte da identidade do interior paulista: a boa gastronomia.

Sabores que contam histórias


Depois de uma manhã repleta de descobertas sobre a arquitetura e a história de Cunha, já era hora de fazermos uma pausa. Seguimos então para o Restaurante Dona Dita, um daqueles lugares que carregam a essência da cozinha do interior. O aroma que vinha da cozinha já nos recebia antes mesmo de nos acomodarmos, despertando aquela agradável sensação de comida feita com carinho.


Nossos viajantes foram ocupando as mesas aos poucos, aproveitando o momento para descansar, trocar impressões sobre a visita ao centro histórico e compartilhar as fotografias registradas durante a manhã. Entre uma conversa e outra, chegaram os pratos preparados com o tradicional tempero da culinária caipira. Era uma comida simples, mas cheia de personalidade, daquelas que dispensam sofisticação porque conquistam pelo sabor, pelo cuidado no preparo e pela hospitalidade de quem a serve. Mais uma vez, Cunha nos mostrava que sua identidade também passa pela gastronomia.


Após o almoço, tivemos um momento livre para caminhar pelas ruas da cidade. Sem pressa, nosso grupo foi descobrindo o comércio local, entrando em pequenas lojas, observando vitrines, conversando com os comerciantes e escolhendo lembranças para levar para casa. Afinal, toda viagem deixa memórias, mas sempre existe um objeto, um doce ou uma peça artesanal que nos ajuda a reviver aqueles dias quando voltamos para nossa rotina.


A arte que nasce das mãos


Nossa próxima parada foi a Casa do Artesão, um espaço que reúne o talento de diversos artistas da comunidade local. Logo na entrada, nossos olhos foram atraídos pela enorme variedade de peças produzidas em cerâmica, madeira, tecido e tantos outros materiais que revelam a riqueza cultural de Cunha.


Era impossível percorrer aquele espaço sem admirar a dedicação presente em cada trabalho. As peças carregavam identidade, criatividade e a delicadeza do fazer artesanal. Muitos viajantes caminhavam lentamente entre as prateleiras, observando detalhes, perguntando sobre as técnicas utilizadas e escolhendo pequenos objetos que passariam a fazer parte da decoração de suas casas. Mais do que comprar um souvenir, levávamos conosco um pouco da história de quem transforma arte em profissão e mantém viva uma tradição que atravessa gerações.


Mais uma vez percebíamos que Cunha tem uma relação muito especial com o trabalho manual. A cidade valoriza o tempo, o cuidado e o processo de criação. Talvez seja justamente isso que faça com que arquitetos se sintam tão conectados com esse lugar: aqui compreendemos que beleza e qualidade nunca são produzidas às pressas.



nossa visita na famosa Casa do Strudel, vivendo as delicias dos doces em Cunha com os viajantes.
nossa visita na famosa Casa do Strudel, vivendo as delicias dos doces em Cunha com os viajantes.

Uma pausa com sabor de afeto


Nossa tarde continuou em um dos lugares mais charmosos da cidade: a Casa do Strudel.

O ambiente encantava logo na chegada. A arquitetura acolhedora, a decoração cuidadosamente composta, os móveis espalhados pelo amplo salão e os pequenos detalhes faziam com que o espaço lembrasse uma antiga casa de família. Tudo ali convidava a permanecer por mais tempo.


Enquanto alguns viajantes escolhiam um chá bem quente para enfrentar o frio da serra, outros não resistiram ao tradicional strudel de maçã, servido ainda morno, acompanhado de tortas e outras delícias preparadas na própria casa. O aroma da canela, da massa recém assada e do café tomava conta do ambiente, tornando aquele momento ainda mais especial.


As conversas seguiam tranquilas entre uma fatia e outra, enquanto o grupo aproveitava para descansar antes da última visita do roteiro. Havia quem comentasse sobre a cerâmica, quem ainda lembrasse do pôr do sol no Lavandário e quem já começasse a planejar uma futura volta à cidade. Afinal, alguns lugares nos conquistam justamente porque conseguem nos fazer diminuir o ritmo e apreciar os pequenos prazeres da vida.


aquela pausa no campo das oliveiras descobrindo a floração das azeitonas, simplesmente fantástico.
aquela pausa no campo das oliveiras descobrindo a floração das azeitonas, simplesmente fantástico.

O ouro líquido da Mantiqueira


Nossa última experiência em Cunha nos levou ao Sempre Olivas, um espaço dedicado ao cultivo das oliveiras e à produção de azeites premiados.

Fomos recebidos por Vitor, que nos conduziu por uma verdadeira aula sobre todo o processo de produção. Descobrimos como acontece a colheita das azeitonas, os critérios para selecionar os frutos, o funcionamento da extração e os cuidados necessários para preservar a qualidade do azeite até chegar à mesa.


Enquanto caminhávamos pelos campos de oliveiras, era impossível não admirar a paisagem. As montanhas da Mantiqueira formavam um cenário privilegiado para aquele cultivo e reforçavam a forte relação entre a natureza e o trabalho humano. Cada árvore carregava anos de dedicação e paciência, mostrando que produzir um grande azeite exige o mesmo respeito pelo tempo que encontramos nos ateliês de cerâmica visitados no primeiro dia.


De volta ao espaço de degustação, chegou um dos momentos mais aguardados da visita. Sobre a mesa estavam diferentes variedades de azeite acompanhadas por pão italiano recém cortado. Experimentamos sabores distintos, descobrindo notas mais suaves e frutadas, outras mais intensas e levemente apimentadas. Para muitos viajantes, foi a primeira oportunidade de compreender que um azeite pode revelar características tão diferentes quanto um bom vinho.


Enquanto observávamos o fim da tarde tomando conta da paisagem, percebíamos que aquela experiência encerrava perfeitamente nossa passagem por Cunha. A cidade nos ensinou, durante dois dias, que qualidade nasce da dedicação, da paciência e do respeito ao tempo — seja moldando o barro, preservando um patrimônio histórico, preparando uma boa refeição ou cultivando oliveiras.





fechando nossa viagem na Arquitetura das Montanhas de Cunha.
fechando nossa viagem na Arquitetura das Montanhas de Cunha.

A saudade começa na estrada de volta

Chegou então o momento de iniciar nossa viagem de retorno. Aos poucos, o ônibus deixava para trás as montanhas da Mantiqueira enquanto as conversas revelavam as impressões de cada viajante. Alguns falavam da emoção ao conhecer os ateliês de cerâmica. Outros lembravam do espetáculo do pôr do sol no Lavandário, das músicas ao redor da grande mesa na pousada ou dos sabores que descobriram ao longo do caminho.


Cunha tem essa capacidade de nos conquistar sem fazer alarde. Sua beleza está nos detalhes: nas ruas tranquilas, nas construções preservadas, nas mãos dos artesãos, no perfume da lavanda, no calor de um caldinho compartilhado entre amigos e na simplicidade de quem recebe cada visitante como se estivesse abrindo as portas da própria casa.


Enquanto a noite caía novamente sobre a estrada, a lua surgia acompanhando nosso caminho por entre as curvas da serra, como se também se despedisse da cidade. Já começávamos a falar sobre nossa próxima aventura. Gramado nos espera, com novas paisagens, outra história, outra arquitetura e muitas descobertas que ainda estão por vir.


Cada viagem do Caminhos da Arquitetura é única porque nenhum lugar é igual ao outro, e porque cada grupo escreve sua própria história.

Voltamos para casa levando fotografias, lembranças e algumas compras na bagagem. Mas, acima de tudo, voltamos carregando experiências, amizades e memórias que continuam viajando conosco muito depois que a estrada termina.


E viva nossos Caminhos juntos. Nos encontramos na próxima viagem !!!



 
 
 

6 comentários

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Sonua Luersen
há um dia

Aceitar o inesperado, se adaptar ao novo, ter o olhar critico com humildade para aprender. Caminhos em Cunha foi assim, descobrir em cada cantinho uma história construída, uma história feita por pessoas locais e de outros lugares que ali se instalaram. E nós, os viventes desse movimento.

Na minha história, marcou-me o encontro com uma vizinha da infância que eu não conhecia. Ela morou a uma esquina de mim em São Paulo, mas nunca nos vimos por lá. Trinta anos depois, fui conhecê-la em Cunha, diante de um lago. Foi emocionante descobrir essa coincidência só porque lhe ofereci ajuda com uma foto. O assunto rendeu, e ficamos muito felizes ao perceber que moramos tão perto no passado antes de nos…

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MORITA
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Viajar com os Caminhos da Arquitetura é igualmente uma experiência espiritual que permite que você se descubra.


Os locais que visitamos funcionam como janelas e a natureza nos educa e muda.


A espiritualidade não se limita a lugares sagrados, em variadas ocasiões, ela se manifesta diante de uma vista que nos deixa em paz.


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Aninha
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Uma delícia de viagem, como sempre!! 💜🩷

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ELAINE RANGEL
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que privilegio ter vivido isso e ter contemplado a cada segundo essa experiencia, que conexao, quantas pessoas especiais, quantas risadas, quantas conversas e quantas historias. Caminhos da arquitetura foi demais!!!

O meu muito obrigada!!!

Gratidão 💜🪻

Editado
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Karla Sotto
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Um dos melhores passeios que já fiz com o Caminhos da Arquitetura. As histórias contadas nos envolve em cada acontecimento do surgimento da cidade. Partimos de lá com vontade de querer ficar mais um pouquinho.

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