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DIÁRIO DE VIAGEM – São Roque | arquitetura do sabor




Dizem que o vinho alegra a alma. Mas será que é verdade?

Foi exatamente isso que o Caminhos da Arquitetura saiu para descobrir na sua vivência rumo à Rota do Vinho em São Roque.


O dia 21 de junho chegou mais rápido do que imaginávamos. Parecia que ainda nem tínhamos nos despedido de Tiradentes e uma nova aventura já nos aguardava.

 

O início da viagem seguiu a rotina que já virou tradição. Aos poucos, nossos viajantes foram chegando ao Parque Santos Dumont, encontrando seus lugares no ônibus e colocando a conversa em dia. O lanchinho já estava pronto para forrar o estômago e, entre uma risada e outra, surgiram as primeiras apostas do dia: quantas taças cada um conseguiria degustar sem pegar no sono ou ficar "de fogo"?

O vinho ainda estava longe, mas a alegria já havia embarcado com a gente.


 

A família Caminhos da Arquitetura tem contagiado todos por onde passa e, desta vez, não foi diferente. Quem acabou entrando no clima foi o arquiteto Luís Nunes, que aceitou nosso convite para conduzir a vivência.



E como toda boa viagem guarda surpresas, Luís tirou uma da manga.

Antes dos vinhos, nos presenteou com uma visita inesperada ao Sítio Santo Antônio, lar da primeira Casa Bandeirista Paulista.

Não tinha como os arquitetos ficarem mais felizes.

Ou melhor... talvez só com a chegada do vinho. 


Lá vai um pouquinho de história.


São Roque foi fundada em 1657 pelo bandeirante Pedro Vaz de Barros e recebeu esse nome em homenagem ao santo católico de quem era devoto. Na mesma época, seu irmão, Fernão Paes de Barros, construiu o Sítio Santo Antônio e a capela que serviam como pouso para viajantes e bandeirantes que cruzavam a região. Foi ali que surgiu a primeira Casa Bandeirista Paulista, um importante testemunho da arquitetura colonial do estado de São Paulo.


Mas vamos combinar uma coisa: por mais interessante que seja ouvir a história dentro do ônibus, nada se compara à sensação de chegar ao lugar.


Na entrada do sítio já encontramos o senhor Paulo, caseiro do local e guardião de muitas histórias. Com aquele jeito simples de quem conhece cada canto da propriedade, ele nos recebeu como se estivéssemos chegando para uma visita na casa de um velho amigo.


Descemos do ônibus e começamos a caminhar por uma estrada cercada de árvores. Os galhos pareciam brincar com a luz da manhã, desenhando sombras pelo caminho. O inverno resolveu colaborar e nos presenteou com um daqueles dias em que o céu parece ter sido recém pintado.

E então a paisagem se abriu.



Na nossa frente surgiu um enorme gramado verde que mais parecia um tapete estendido para receber os visitantes. Ao fundo, a Casa Grande se destacava na paisagem. Silenciosa. Imponente. Daquelas construções que não precisam chamar atenção porque a própria história já faz isso por elas.


Por alguns instantes o grupo ficou apenas observando.

Não era necessário dizer muita coisa.

Aquele cenário falava sozinho.


 

Enquanto o arquiteto Luís Nunes nos contava a história do lugar, fomos nos aproximando da construção e percebendo detalhes que, à primeira vista, poderiam passar despercebidos.


A casa se impõe pela simplicidade. Linhas retas, volumes marcantes e uma presença que atravessa os séculos sem perder a força.

Na lateral da residência encontramos a capela.

Pequena no tamanho, gigante na importância.


Alguns degraus de pedra conduzem até a entrada, criando uma transição quase simbólica entre o lado de fora e o interior do edifício. Lá dentro, pinturas nas paredes e no teto ajudam a contar um pouco da religiosidade daquela época. Os móveis antigos, as marcas do tempo e a luz entrando pelas pequenas aberturas tornam o ambiente ainda mais especial.


Foi impossível não imaginar quantas pessoas passaram por ali ao longo dos séculos.

Quantas orações foram feitas.

Quantas histórias aquelas paredes ouviram.



Em determinado momento, o senhor Paulo apareceu com um enorme molho de chaves originais da propriedade.


E aí aconteceu algo curioso.


Um grupo inteiro de arquitetos ficou fascinado por um punhado de chaves enferrujadas. isso mesmo!

Mas não eram chaves comuns.

Eram peças enormes, pesadas, que pareciam saídas de um filme de época. Rapidamente viraram assunto, fotografias e motivo de admiração.

 

 


Depois seguimos para o interior da Casa Grande.

Ali começamos a observar de perto aquilo que até então só aparecia nos livros e nas aulas de história da arquitetura.


As paredes de taipa de pilão, as pequenas janelas feitas em canela, a estrutura de madeira da cobertura, os pisos irregulares e os amplos ambientes ventilados revelavam soluções construtivas que atravessaram mais de três séculos.


Cada cômodo guardava uma descoberta.

Cada janela revelava uma nova paisagem.

Cada detalhe parecia reforçar a inteligência de quem construiu aquele lugar sem computadores, sem máquinas modernas e sem imaginar que, séculos depois, um grupo de arquitetos estaria ali admirando seu trabalho.

Nos fundos da casa, mais uma surpresa.


A vista era simplesmente espetacular.

Dali foi possível compreender por que aquele local foi escolhido. A posição privilegiada favorecia os acessos, a ventilação e o domínio visual do entorno. Tudo parecia estar exatamente onde deveria estar.


Foi um daqueles momentos em que a arquitetura deixa de ser apenas construção e passa a ser entendimento do território.

 

Na volta para o ônibus, já não caminhávamos como visitantes.

Havia uma sensação curiosa de pertencimento.

Como se aquele lugar, por algumas horas, também tivesse sido nosso.


E entre tantas cenas bonitas daquela manhã, uma chamou a atenção de todos.

A pequena Alana corria livre pelo gramado, com apenas dois anos de idade, parecia a viajante mais feliz do grupo.


Enquanto sua mãe, a arquiteta Rafaela, e seu pai acompanhavam cada passo com atenção, Alana descobria o sítio do seu próprio jeito: correndo, sorrindo e explorando.


Talvez seja exatamente assim que nasça o amor pela arquitetura.

Primeiro pela experiência.

Depois pela história.

E só então pelos edifícios.



Mas o relógio continuava correndo.

E em algum lugar de São Roque, algumas taças de vinho aguardavam ansiosamente a chegada do nosso grupo.


De volta ao ônibus, finalmente chegou o momento mais aguardado por alguns viajantes. Afinal, até aquele momento já tínhamos falado de vinho, brincado sobre vinho e criado expectativas sobre vinho. Faltava apenas uma coisa: provar o vinho.


Seguimos então para a Vinícola Góes.


Ainda durante o trajeto as conversas continuavam animadas. Uns tentavam lembrar o nome das uvas que já conheciam, outros garantiam ser especialistas no assunto, mesmo deixando claro que sua experiência vinha mais dos almoços de domingo do que dos livros de enologia.


Na chegada, o movimento já mostrava que não éramos os únicos com vontade de brindar aquele sábado. Pessoas circulavam por todos os lados, famílias caminhavam pelos jardins e grupos ocupavam os espaços da vinícola.

Lista confirmada, pulseiras colocadas no braço e pronto.

Agora era oficial.

A experiência poderia começar.



Nos acomodamos nos lugares reservados e cada participante recebeu sua taça. Engraçado como uma simples taça vazia já consegue despertar tanta expectativa. Bastava olhar para o grupo para perceber alguns sorrisos discretos surgindo antes mesmo do primeiro gole.


Foi então que Guilherme, nosso monitor naquela experiência, começou a nos apresentar a história da produção de vinhos na região. Falou sobre os imigrantes italianos e portugueses que chegaram a São Roque trazendo consigo costumes, técnicas e tradições que ajudaram a construir a famosa Rota do Vinho.

Enquanto a história era contada, as taças começaram a ser preenchidas.


O primeiro vinho da tarde foi um Rosé.

Leve, agradável e perfeito para abrir os trabalhos, os comentários surgiram imediatamente.

Uns identificavam notas que ninguém mais conseguia encontrar. Outros resumiam a análise em um sincero e objetivo:

— Gostei.

E estava tudo certo.


Afinal, a melhor parte da degustação talvez nem estivesse no vinho, mas no momento compartilhado ao redor dele.

Em seguida vieram o Carmenère, o Cabernet Sauvignon e o Malbec. Cada um com suas características, seus aromas e suas personalidades.


A cada nova taça surgiam novas conversas, os brindes começaram tímidos, mas não demoraram para se multiplicar.


Brindamos à amizade.

Brindamos às viagens.

Brindamos à arquitetura.

Brindamos à vida.


E provavelmente brindamos algumas vezes sem motivo específico também, apenas porque a ocasião parecia pedir.

O clima ficou ainda mais leve. Risadas ecoavam entre as mesas e a sensação era de que todos estavam exatamente onde gostariam de estar naquele momento.


Talvez seja isso que as pessoas que dizem que o vinho alegra a alma estejam tentando explicar.

Não é apenas a bebida.

É a experiência.



São as histórias compartilhadas, os encontros, as memórias que estão sendo construídas enquanto a taça circula de mão em mão.


Terminada a degustação, chegou a hora de visitar a loja da vinícola.

E aí aconteceu algo previsível.


Muitos decidiram levar um pedacinho daquela experiência para casa, garrafas foram escolhidas cuidadosamente, algumas para presentear, outras para guardar para uma ocasião especial e outras simplesmente porque seria impossível sair dali sem levar uma lembrança.


Mais algumas fotografias, mais algumas conversas e então chegou a hora do almoço.

Cada viajante escolheu seu restaurante preferido e aproveitou o tempo livre para relaxar, conhecer melhor o espaço e continuar as conversas iniciadas durante a manhã.


Porque no Caminhos da Arquitetura sempre acontece algo curioso.

As viagens começam com um grupo.

E terminam com uma turma de amigos.


Depois do almoço caminhamos mais um pouco pela propriedade, aproveitando os últimos momentos naquele ambiente tão agradável.

Mas o dia ainda reservava uma surpresa.


Se a manhã havia sido marcada pela história e a tarde pelos vinhos, agora seria a vez do chocolate. 


Seguimos então, trançando as pernas para nossa próxima parada.

A fábrica da Cacau Show nos aguardava, pelo entusiasmo dentro do ônibus, era difícil dizer quem estava mais animado: os adultos ou as crianças que ainda vivem dentro deles.



No caminho para a fábrica de chocolate, o dia já começava a escurecer. O sol se despedia devagar enquanto seguíamos pela Rodovia Castelo Branco. Depois da visita histórica ao Sítio Santo Antônio e da missão científica de descobrir se o vinho realmente alegra a alma, era hora de encarar o último desafio do dia.

O chocolate.


Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre qual parada seria a favorita da viagem, bastava observar a animação dentro do ônibus.


Curiosamente, os mesmos viajantes que minutos antes analisavam notas aromáticas, taninos e características das uvas agora discutiam assuntos muito mais importantes, como qual trufa levar para casa e quantos chocolates caberiam na mala sem chamar a atenção da família.


De longe já avistamos o gigantesco complexo da Cacau Show.

Mas antes mesmo de falar dos chocolates, era impossível não reparar na fachada. Um enorme mural colorido dominava a paisagem. Com impressionantes 5.742 metros quadrados, a obra assinada por Eduardo Kobra retrata um homem conduzindo uma canoa carregada de cacau. Inspirado em uma fotografia de Lailson Santos, o painel é considerado o maior mural de grafite do mundo.

E que jeito bonito de chegar.


Logo na entrada percebemos que aquilo era muito mais do que uma fábrica.

Era praticamente um parque de diversões para quem gosta de chocolate.


Prateleiras e mais prateleiras surgiam diante dos nossos olhos. Barras, bombons, trufas, presentes, lançamentos e edições especiais ocupavam todos os espaços. Alguns viajantes tentavam manter a compostura.

Tentavam.


Porque bastavam poucos minutos para ver adultos caminhando pelos corredores com o mesmo brilho nos olhos de uma criança entrando em uma loja de brinquedos.

Através dos grandes painéis de vidro acompanhamos parte da produção dos chocolates. Máquinas trabalhavam sem parar enquanto barras ganhavam forma diante dos nossos olhos.


O espaço é cheio de surpresas.

Carrossel, cascata de chocolate, trem temático, áreas de convivência e pequenos quiosques espalhados por todos os lados transformam a visita em uma experiência divertida e descontraída.

Em determinado momento já era impossível saber quem estava mais feliz.

As crianças, ou os arquitetos.

Talvez tenha terminado empatado.


Na área externa ainda havia atrações como montanha-russa, carrossel e trenzinho. Já na área interna, as mesas espalhadas pelo espaço viraram ponto de encontro para descansar, conversar e provar algumas das compras que, teoricamente, seriam levadas para casa.

Teoricamente.

Porque várias delas nem chegaram a sair da fábrica.


Entre sacolas, risadas e algumas promessas de "esse chocolate é para presentear alguém", fomos encerrando nossa última parada.

E que dia.


Começamos a manhã viajando para o século XVII, caminhando entre paredes de taipa de pilão e ouvindo histórias dos bandeirantes.

Depois seguimos para a tradição dos vinhos, brindando à amizade, à arquitetura e, em alguns casos, a qualquer motivo que justificasse mais um gole.

Terminamos cercados de chocolate.


Se isso não é uma combinação perfeita, sinceramente não sabemos o que seria.

No retorno para casa, alguns viajantes já cochilavam. Outros conversavam sobre os melhores momentos do dia. E havia aqueles que protegiam suas sacolas de chocolate com mais cuidado do que protegeriam um projeto executivo.


São Roque ficou para trás deixando uma certeza.

A missão foi cumprida.


O vinho realmente alegra a alma.

Mas o chocolate ajuda bastante.


Agora seguimos para casa carregando novas histórias, novas amizades e algumas calorias extras que fingiremos não ter contado.


E enquanto as luzes da estrada passavam pela janela do ônibus, um pensamento já começava a surgir entre os viajantes.


Para onde será a próxima?

A resposta nós já sabemos.

Vitória nos espera.


E pelo histórico do Caminhos da Arquitetura, a próxima aventura promete render tantas histórias quanto esta.

Até a próxima viagem.



 
 
 

9 comentários

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Sylaine
há 2 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Maravilhosa visita!!!

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Convidado:
há 4 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Sempre maravilhoso. Um domingo encontrando amigos e conhecimento. Perfeito

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arq Marcelo Guedes
há 5 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que delicia de encontro juntos novamente, dessa vez com muita história da arquitetura bandeirista paulista e conhecendo o sabor da Rota do Vinho com chocolate.... Foi simplesmente incrivel estarmos juntos e celebrar nossa amizade. Abração a todos...

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Grace Srulzon
há 6 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Mais uma viagem incrível com esta família que é o Caminhos da Arquitetura. É uma honra fazer parte deste grupo.

Novas experiências, novas conexões, reencontros e sempre com uma energia excelente!

Que venham mais....

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Rafaela
há 7 horas

Que viagem incrível. Conhecer o "Caminhos da Arquitetura" me abriu portas. Portas para o novo, para histórias e lugares ainda desconhecidos. Uma família que cuida e espalha conhecimento e experiências. Gratidão!!

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