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DIÁRIO DE VIAGEM – Arquitetura modernista São Paulo

Casa Santa Cruz - Gregori Warchavschik
Casa Santa Cruz - Gregori Warchavschik

Diário de Viagem em São Paulo – Arquitetura modernista 2026

E começamos nosso Ciclo de Viagens de 2026 do Caminhos da Arquitetura em São Paulo: essa cidade cheia de encantos com uma rica arquitetura. O modernismo foi um marco, uma ruptura, uma mudança com intuito de valorizar a arquitetura brasileira. E São Paulo foi o precursor desse movimento e fomos descobrir as inspirações de um grupo de arquitetos inovadores. Era aniversário da cidade, havia um clima de expectativas entre os viajantes. A sensação gostosa de um dia especial que se reconhece sem precisar ser anunciado. Um daqueles dias que pedem rua, caminhada, encontro.


Nosso grupo de viajantes do Caminhos começaram a se movimentar cedo. Parte do grupo saiu de São José dos Campos ainda pela manhã, estrada à frente, café improvisado, conversas que começavam num assunto e terminavam em outro completamente diferente. No trajeto, surgiam lembranças de viagens passadas, comentários sobre projetos, planos para o ano que começava. Ao mesmo tempo, outra parte do grupo já estava em São Paulo, chegando de van, organizando horários, trocando mensagens, aguardando o momento do reencontro. Quando todos finalmente se encontraram, a sensação foi imediata: o grupo estava completo, nosso caminho já estava junto.


Havia uma ansiedade boa no ar. Afinal, era a primeira viagem do ano. Era reencontro. Tinha conversa acumulada desde a Festa do Branco, lá em dezembro. Histórias das viagens em família, mudanças de vida, novos projetos, e aquelas conversas que ficaram pela metade em outras experiências do Caminhos e agora finalmente encontravam espaço para continuar. Antes mesmo da primeira visita, o grupo já estava em movimento — não apenas fisicamente, mas emocionalmente.


Vestidos com a camisa do Caminhos da Arquitetura, algo parecia se alinhar de forma quase intuitiva. O tecido cinza-prata, urbano e discreto, representava a imponência do concreto que contrastava com o traço vermelho, uma linha forte que cortava metade da estampa, como o recorte lateral de nossa Kombi em viagem, acompanhado pelo logo da empresa. A cor vermelha sempre foi a marca da arquiteta Lina Bo Bardi e nossa camisa era algo como trazer a memória dos traços da arquiteta. Era quase um ajuste fino de energia. Como se, naquele momento, a sintonia do grupo tivesse sido calibrada para o que estava por vir. Bastou vestir para entender: aquele dia era nosso, para celebrar a arquitetura.


A primeira parada foi na Casa Modernista da Rua Santa Cruz, projetada por Gregori Warchavchik em 1928. Ao atravessar o portão, o ritmo muda naturalmente. Caminhamos por um bosque e avistamos a famosa casa, se destacando, quase como um ponto decisivo da arquitetura brasileira. Ali, o passado ornamental é deixado para trás sem cerimônia. A casa nasce como ruptura. Volumes puros, linhas retas, fachadas limpas. Nada ali quer impressionar pelo excesso. Tudo quer convencer pela lógica.


O arquiteto Warchavchik pensava a arquitetura como espaço de vida real. Uma casa feita para ser habitada, atravessada pelo dia a dia, adaptada ao clima, ao sol, à ventilação. A luz natural entra com generosidade, os ambientes se comunicam, o jardim não é cenário, é parte integrante da casa. Caminhar por aqueles espaços é perceber como muitas das questões que ainda discutimos hoje já estavam ali, colocadas com clareza quase desconcertante.


Nosso grupo caminhava devagar. Alguns comentavam em voz baixa, outros preferiam observar em silêncio, outros só contemplavam. Havia respeito naquele ritmo. Como se todos entendessem, mesmo sem combinar, que certos lugares não pedem explicações longas. Pedem presença. Pedem tempo. Pedem escuta. E fomos aproveitando cada detalhe, cada olhar, com inúmeras fotos para eternizar aquele momento.


De lá, seguimos para a Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi. E ali, sem aviso, algo muda por dentro. A arquitetura deixa de se impor e passa a flutuar. A casa parece suspensa não apenas sobre pilotis, mas sobre uma ideia de mundo. Para que todos pudessem vivenciar o espaço com calma, nos dividimos em grupos, onde cada percurso revelava algo diferente, quase como se a casa se oferecesse de maneiras distintas a cada visitante, em novos olhares.


A leveza da estrutura chama atenção logo de início. O vidro, presente por todos os lados, dissolve fronteiras. Uma escada leve e imponente nos conecta a casa, cada degrau nos mostra vários ângulos interessantes enquanto adentramos pela casa e descobrimos os detalhes da arquitetura, da arte, do design. A mata entra sem pedir licença, envolve a casa, participa do espaço. Lina não projetou uma residência para ser admirada à distância. Ela projetou um lugar para viver, observar, pensar. Uma arquitetura que não se fecha em si mesma, mas se abre para o entorno, para o cotidiano, para o tempo.


Ali, o aprendizado não vinha apenas das explicações técnicas. Ele surgia nos silêncios, nas pausas, nos olhares demorados para a paisagem. O vidro não é apenas material. É discurso. É escolha ética. É forma de estar no mundo. Muitos saíam dali em silêncio, como quem ainda processa algo que não se traduz imediatamente em palavras. E percorrendo pela casa fomos descobrindo espaços projetados com personalidade: uma cozinha funcional e prática, quartos amplos, banheiros coloridos de verde, ambientes integrados por corredores que se ligam na famosa sala, imponente e contemplativa.


A chuva, que desde cedo rondava o dia, resolveu finalmente se assumir. Primeiro discreta, depois mais constante. Para não perder tempo e manter o ritmo do percurso, o grupo seguiu para o almoço em um shopping próximo. O som da água batendo do lado de fora criava uma espécie de trilha sonora involuntária. Mas nem isso diminuiu o clima. Pelo contrário. As conversas continuaram soltas, atravessadas por risadas, comentários sobre o que já tinha sido visto e expectativas para o que ainda viria.


Foi ali que uma presença especial roubou a cena de forma delicada: Lana, a mais nova viajante do Caminhos, com apenas um ano de idade. Pequena no tamanho, enorme no significado. Seu olhar curioso, seu jeito tranquilo de observar tudo ao redor, lembrava a todos que aquela viagem não era apenas sobre arquitetura enquanto técnica ou profissão. Era sobre vivência. Sobre partilha. Sobre mostrar que a arquitetura, assim como a cidade, é para todos. Em qualquer idade. Em qualquer fase da vida.


Depois do almoço, seguimos para a Casa Butantã, de Paulo Mendes da Rocha. A visita foi contemplativa, feita a partir do entorno, mas nem por isso menos potente. Ali, a arquitetura não se oferece facilmente. Ela exige tempo. Exige atenção. Exige maturidade. O arquiteto Ricardo Andalaf conduziu a explicação com sensibilidade, contextualizando a obra, sua história, suas escolhas, sua relação direta com o terreno.


O concreto ali fala baixo. Não há espetáculo. Não há concessões. Há rigor, inteligência e uma relação profunda com o lugar. É uma arquitetura que não se esgota no primeiro olhar. Pelo contrário. Ela permanece. Ela acompanha. Ela volta na memória depois, quando o corpo já foi embora.


O grupo ouviu em silêncio atento. Alguns anotavam mentalmente. Outros apenas observavam. Foi um daqueles momentos em que o tempo parece desacelerar, mesmo com o dia avançando.


Ao final da tarde, veio o primeiro brinde da viagem. Um gesto simples, espontâneo, verdadeiro. A chuva segurou parte do passeio, mas não segurou a alegria. Ela fez parte da experiência. Costurou o dia com a identidade perfeita de São Paulo. Entre taças erguidas, corpos cansados e sorrisos tranquilos, ficou claro que aquele dia não tinha sido apenas um roteiro arquitetônico.


Foi reencontro. Foi continuidade. Foi caminho compartilhado. Foi memória sendo construída em tempo real.


A arquitetura, no fim das contas, não é só aquilo que se ergue em concreto, aço e vidro. É aquilo que se constrói entre pessoas. Nos olhares trocados, nas conversas interrompidas que continuam, nos silêncios compartilhados diante de um espaço que toca fundo. E naquele 25 de janeiro, em sua primeira viagem arquitetônica de 2026, o Caminhos da Arquitetura não apenas percorreu São Paulo. Caminhou com ela. Como quem admira. Como quem escuta. Como quem sabe que algumas cidades não se visitam — se vivem. Uma cidade tem vários olhares, diferentes entendimentos e se São Paulo tem uma grandiosidade na sua extensão, partimos de volta pra casa com sentimento de quero mais. E animados para nossa próxima viagem, dessa vez numa cidade menor, mas de uma grande riqueza arquitetônica: São Luiz do Paraitinga será uma viagem na arquitetura colonial portuguesa. Um abraço e até a próxima...

 


 
 
 

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há 3 dias
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Viagem sensacional, as viagens com o Caminhos da Arquitetura valem muito a pena.

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